quinta-feira, 25 de junho de 2009

Uma sociedade

Virginia Woolf

Eis aqui como tudo começou. Sentadas um dia depois do chá, éramos cinco ou seis. Umas olhavam pela rua para as vitrines de uma chapelaria onde a luz ainda brilhava intensamente sobre plumas escarlates e chinelos dourados.
Outras estavam ociosamente ocupadas em construir pequenas torres de açúcar na borla da bandeja de chá. Passado um tempo, pelo que eu lembro, juntamo-nos em volta do fogo e começamos a elogiar os homens, como de hábito – tão fortes, tão nobres, tão brilhantes, tão corajosos, tão belos – como invejávamos as que por bem ou por mal deram um jeito de se ligar para sempre a um deles! – quando Poll, que não tinha dito nada, explodiu em lágrimas. Poll, devo dizer-lhes, sempre foi esquisita. A começar por seu pai, homem estranho. Deixou-lhe uma fortuna em testamento, mas com a condição de que ela lesse todos os livros da Biblioteca de Londres. Fizemos o possível para a consolar; embora soubéssemos, no íntimo, que era tudo inútil. Pois, apesar de não gostarmos de Poll, ela não é lá essas coisas; anda de sapatos desamarrados; e devia estar pensando, quando elogiamos os homens, que nunca um deles iria querer casar com ela. Por fim enxugou as lágrimas. Mas nós, por algum tempo, não entendíamos nada do que ela estava dizendo. Em são consciência era muito estranho. Disse-nos que, como sabíamos, ela passava a maior parte do seu tempo lendo, na Biblioteca de Londres. Contou-nos que tinha começado pela literatura inglesa, no andar de cima; e que avançava a passos firmes para chegar a The Times, no de baixo. Mas ao meio caminho, ou talvez apenas um quarto, aconteceu uma coisa horrível. Ela não conseguia mais ler. Os livros não eram o que nós pensávamos. “Os livros”, gritou ela, pulando em pé e falando com uma intensidade de desolação que nunca hei de esquecer, “são em sua maior parte indescritivelmente ruins!”
E gritamos nós naturalmente que Shakespeare escreveu livros, e Milton, e Shelley.
“Ah, sim”, ela interrompeu. “ Estou vendo que forma bem ensinadas. Mas vocês não são leitoras da Biblioteca de Londres”. Seus soluços aqui se renovaram. Por fim, melhorando um pouco, ela abriu um dos livros da pilha que sempre levava ao lado - intitulado "De uma janela" ou "Num jardim" ou mais ou menos assim e escrito por um homem chamado Benton ou Henson ou algo semelhante. E leu a primeiras páginas. Nós ouvimos em silêncio. "Mas isso aí não é um livro", alguém disse. Ela então escolheu outro. Dessa vez era um livro de história, mas esqueci o nome do autor. Nossa trepidação crescia à medida que ela avançava. Nenhuma palavra ali parecia ser verdade, e o estilo no qual estava escrito era execrável.
"Poesia! Poesia!, gritamos impacientemente. "Leia poesia!" Não consigo descrever a desolação que se abateu sobre nós quando ela abriu o volumezinho e recitou a baboseia sentimental e verbosa que nele estava contida.
"Deve ter sido escrito por uma mulher", alegou uma de nós. Mas não. Ela nos disse que o autor era um jovem, um dos poetas mais famosos do momento. Que vocês mesmos imaginem o choque que essa descoberta causou. Apesar de gritarmos todas e de pedirmos todas que não lesse mais, ela insistiu e nos leu trechos das Vidas dos Presidentes da Câmara dos Pares. Quando acabou, Jane, a mais velha e sábia de nós, pôs-se de pé para se declarar não convencida.
- Por quê?, perguntou, se os homens escrevem porcarias assim, deveriam nossa mães ter perdido sua juventude para trazê-los ao mundo?.
Ficamos todas em silêncio; e a pobre Poll, no silêncio pode ser ouvida aos soluços. "Por que, por que meu pai me ensinou a ler?"
Clorinda foi a primeira a demonstrar sensatez. "E tudo culpa nossa", disse. "Todas nós sabemos ler. Mas nenhuma, a não ser Poll, já se deu o trabalho de o fazer. Eu, quanto a mim, sempre achei que o dever de uma mulher era passar sua juventude tendo filhos. Eu venerava minha mãe, que teve dez; e mais ainda a minha avó, que teve quinze; minha própria ambição, confesso, era ter vinte. Passamos por todas essas épocas supondo que os homens fossem igualmente industriosos e que suas obras eram de igual mérito. Enquanto criávamos os filhos, eles, supúnhamos, criavam livros e quadros. Povoamos o mundo. E eles o civilizaram. Mas agora que nós sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados? Antes de trazermos outra criança ao mundo, temos de nos jurar que vamos descobrir como o mundo é".
Constituímo-nos assim numa sociedade de fazer perguntas. Uma de nós iria visitar um navio de guerra; outra iria se esconder no gabinete de um erudito; uma terceira assistiria a um encontro de homens de negócios; e todas deveríamos ler, ver quadros, ir a concertos, andar de olhos bem abertos e fazer perpetuamente perguntas. Éramos muito jovens. Vocês podem calcular nossa ingenuidade se eu lhes disser que naquela noite, antes de nos despedirmos, concordamos que o objetivo da vida era formar boas pessoas e produzir bons livros. Nossas perguntas seriam direcionadas para saber até que ponto esse ponto era atualmente alcançado pelos homens. Prometemo-nos solenemente que nenhuma de nós teria um filho antes de nos darmos, todas, por satisfeitas.

(...)

- Nunca chegaremos a uma conclusão nesse ritmo, disse ela. - Como a civilização se mostra muito mais complexa do que imaginávamos não seria melhor nos limitarmos à nossa indagação original? Concordamos que o objetivo da vida era formar boas pessoas e produzir bons livros. Mas esse tempo todo nós falamos de fábricas, aeroplanos, dinheiro. Vamos falar dos próprios homens, e de suas artes, pois este é o cerne da questão.
(...)
Aconteceu de eu me achar sozinha, cerca de três meses depois, quando Castalia entrou. Não sei bem o que na sua aparência me impressionava; mas não pude refrear-me, e precipitando-me pelo quarto, apertei-a nos braços. Não somente ela estava muito bonita; parecia também irradiar alegria.
- Que ar mais feliz!, exclamei enquanto ela sentava.
- Estive em Oxbrigde", ela disse.
- Fazendo perguntas?
- Respondendo - retrucou.
- Não quebrou nosso voto, não é?, disse eu, ansiosa, notando algo em sua expressão.
- Oh, o voto, - disse ela descuidadamente. - Eu vou ter um filho, se é isso que você quer saber. Você não pode imaginar, - explodiu - como é estimulante, como dá satifação, como é bonito...
- O quê? - perguntei

(...)

- Seja como for, não há razão para supor que alguma mulher já foi capaz ou um dia será capaz de escrever", continuou Eleonor. - No entanto, quando estou entre autores, eles nunca deixam de me falar dos seus livros. Magistral! digo eu, ou: nem o próprio Shakespeare! (pois é preciso dizer alguma coisa), e garanto que eles acreditam em mim.
- Mas isso não prova nada, disse Jane. - Todos fazem o mesmo. O problema, suspirou, é que isso não parece nos ajudar muito. Talvez fosse melhor examinarmos agora a literatura moderna. Liz, é a sua vez.
Elizabeth se levantou e disse que, para fazer sua pesquisa, teve de se vestir de homem e passar por resenhista de livros.
- Li livros novos praticamente sem parar durante os últimos cinco anos, disse ela. - Wells é o mais popular dentre os autores vivos; depois vem Arnold Bennett; depois é Compton Mackenzie; McKenna e Walpole podem ser postos juntos. E aí sentou-se.
- Mas você não nos disse nada, reclamamos. - Ou estará querendo dizer que esses senhores ultrapassam em muito Jane-Eliot e que a ficção inglesa está bem entregue nas mão deles.
- Bem entregue, garantida, disse ela, mudando intranquilamente de pé. - E estou certa de que eles dão ainda mais do que recebem.
Disso estávamos todas certas. - Mas eles, pressionamo-la, eles escrevem bons livros?
- Bons livros?, disse ela, olhando para o teto. - Vocês devem se lembrar, continuou, falando com extrema rapidez, - de que a ficção é o espelho da vida. E não podem negar que a educação é da maior importância, e que seria imensamente desagradável achar-se você sozinha em Brighton, tarde da noite, sem saber qual a melhor pensão para ficar e, supondo-se que fosse uma tarde chuvosa de domingo - mão seria bom ir ao cinema?
- Mas o que isso tem a ver com aquilo?, perguntamos.
- Nada, nada, nada de nada - respondeu ela.
- Diga-nos a verdade - pedimos
- A verdade? Pois não é uma maravilha? - ela se abriu: - Há trinta anos que mr. Chitter escreve um artigo semanal sobre o amor ou sobre torradas amanteigadas quentes e com isso mandou todos os filhos para Eton...
- A verdade! - exigimos.
- Oh, a verdade - ela gaguejou, - a verdade não tem nada a ver com a literatura - e recusou-se a dizer qualquer coisa mais.
Tudo era a nosso ver, muito inconclusivo.
- Senhoras, temos que tentar resumir os resultados, ia dizendo Jane, quando um rumor, que há algum tempo já se ouvia pela janela aberta, abafou sua voz.
"Guerra! Guerra! Guerra! Declaração de guerra!, gritavam homens na rua embaixo.
Entreolhamo-nos horrorizadas.
- Que guerra?, gritamos. - Que guerra? - Lembramo-nos, mas nunca tínhamos pensado em mandar ninguém para a a Câmara dos Comuns. A respeito disso, esquecêramos tudo. Viramo-nos para Poll, que alcançara as prateleiras de historia da Biblioteca de Londres, pedindo-lhe que nos esclarecesse.
- Por que - gritamos - os homens entram em guerra?
- Às vezes por uma razão, às vezes por outra, - explicou ela calmamente. Em 1976, por exemplo... - A berraria lá fora sobrepôs-se às suas palavras. - Novamente em 1797, em 18o4, em 1866 foram os austríacos, em 1970, os franco-prussianos, em 1900, por outro lado...
- Mas já estamos em 1914, interrompemos.
- Ah, agora - ela admitiu - não sei por que é que estão em guerra não.

***
A guerra tinha acabado e a paz já estava sendo assinada quando estive mais uma vez com Castalia no quarto onde costumeiramente ocorriam nossos encontros. Logo nos pusemos a revirar as páginas de nossos velhos cadernos de anotações. "É gozado", refleti, "ver o que nós pensávamos há cinco anos. "Concordamos",citou Castalia, lendo por cima do meu ombro, "que o objetivo da vida é formar boas pessoas e produzir bons livros". Não fizemos o menor comentário a isso. "Um bom homem deve ao menos ser honesto, apaixonado e desinteresseiro". "Que linguagem de mulher", observei. "Oh, querida", exclamou Castallia, afastando o livro de si, " como éramos tolas! E tudo por culpa do pai da Poll", continuou. "Aquilo que ele fez de propósito - aquele testamento ridículo, aquela cláusula obrigando Poll a ler", disse ela amargamente, "ainda poderíamos estar tendo filhos na ignorância, e afinal essa seria, creio eu, a mais feliz das vidas. Sei o que você há de dizer sobre a guerra", examinou-me, "e o horror que é ter filhos para os ver mortos. mas nossas mães passaram por isso, e as avós, e as bisavós, e nenhuma reclamou. Elas não sabiam ler. Eu mesma fiz o que pude", suspirou, "para impedir minha filhinha de aprender, mas de que adianta? Ontem mesmo peguei Ann com um jornal na mão, e logo ela foi me perguntando se ele dizia 'a verdade'. Em breve me perguntará se mr. Hoyd George é um bom homem, depois se mr. Arnold Bennet é um bom romancista e finalmente se eu acredito em Deus. Como posso educar minha filha sem nada no que acreditar?, perguntou.
"Certamente você poderia ensiná-la a crer que o intelecto do homem é e sera sempre fundamentalmente superior ao da mulher?", sugeri eu. Com isso ela se animou e voltou a revirar os nossos velhos cadernos. "Sim, disse, "pensei nas descobertas, na matemática, na ciência, na filosofia, na erudição deles...", e aí começou a rir, "nunca vou me esquecer do velho Hobkin e o grampo de cabelo", acrescentou, e continuou lendo e rindo e eu já achava que estava muito feliz quando de repente jogou o livro de lado e exclamou: " Oh, Cassandra, por que você me atormenta? Você não sabe que nossa crença no intelecto do homem é a maior falácia de todas?". "O que ?", exclamei eu. "Pergunte a qualquer jornalista, mestre-escola, político ou dono de botequim do país e todos eles lhe dirão que os homens são muito mais inteligentes do que as mulheres". Como se eu duvidasse disso", disse com escárnio. "Como ser de outro modo? Não fomos nós que os criamos e nutrimos e mantivemos em conforto desde o começo dos tempos para que eles pudessem ser inteligentes, mesmo que não sejam nada além disso? Foi feito por nós o que aí está?, gritou. "Quisemos tanto ter intelecto, que agora temos de sobra. É o intelecto", continuou, "que está na base de tudo". O que há de mais encantador que um garoto, antes de começar a cultivar o intelecto? É bonito ver, não se dá ares de importância: compreende instintivamente o significado da arte e da literatura: anda por aí aproveitando sua vida e fazendo com que outros aproveitem também as suas. Mas aí lhe ensinam a cultivar o intelecto. Ele se torna um advogado, um funcionário público, um general, um autor, um professor. Todos os dias vai ao escritório. Todos os anos produz um livro. Mantém toda uma família com as produções do seu cérebro - pobre coitado! Em breve não poderá entrar num quarto sem que nos sintamos todas incomodadas; ele se mostra condescendente com qualquer mulher que encontra, e nem sequer à própria esposa ousa dizer a verdade; se tivermos de tomá-lo nos braços, temos de fechar nossos olhos, não de alegrá-los. Na verdade eles se consolam com estrelas em todos os formatos, com faixas de todas as cores e com todos os montantes de renda - mas o que temos nós para nos consolar? Que dentro de dez anos seremos capazes de passar uma semana em Lahore? Ou que o menos inseto do Japão tem um nome que é o dobro da extensão de seu corpo? Oh, Cassandra, pelo amor de Deus, vamos inventar um método que permita aos homens terem filhos! É a nossa única esperança. Pois, a não ser que lhes propiciemos uma ocupação inocente, não teremos boas pessoas, nem sequer bons livros; pereceremos sob os frutos de sua desembestada atividade; e não sobreviverá nem mesmo um ser humano para saber que outrora existiu Shakespeare!".
"Já é tarde demais", repliquei. "Não podemos nem cuidar dos filhos que já temos."
"E você quer que eu acredite em intelecto?", ela disse.
Enquanto conversávamos, homens roucos e exaustos gritavam pela rua e ouvindo-os, ficamos sabendo que o Tratado de Paz tinha sido assinado havia pouco. As vozes foram sumindo ao longe. A chuva caía e por certo interferia com a correta explosão dos fogos de artifício.
"Minha empregada já terá comprado o Evening News", disse Castalia, "que Ann deve estar soletrando enquanto toma seu chá. Tenho de ir para casa".
"Não adianta - não adianta nada disse eu. " Depois que ela aprender a ler, somente numa coisa você poderá ensiná-la a acreditar - nela mesma."
"Bem, já seria uma mudança", disse Castalia.
Passamos pois a mão nos papéis da nossa Sociedade e, embora Ann estivesse brincando com a sua boneca na maior felicidade, solenemente a presenteamos com o monte, dizendo-lhe que a tínhamos escolhido para ser a Presidente da Sociedade do futuro - com o que a coitadinha caiu em prantos.

Livro: Contos Completos de Virginia Woolf

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